Deserto do Atacama

* Colaboração de Clari e Cris Silva com texto de Suzy Freitas.

Laguna Miniques: tom azul da água contrasta com entorno avermelhado

A fotografia de um cenário deslumbrante pontilhado de rochas coloridas e um lago de águas transparentes que cintilavam sob o azul turquesa do céu chamou a atenção de Clari e Cris, quando planejavam as primeiras férias depois do casamento. Eles queriam um lugar com sol, exótico, mas que não fosse praia. Ainda não havia passado nem um ano da lua-de-mel que foi dividida entre Fernando de Noronha e Flórida, com direito a esticada à Key West. Estava decidido: iriam desbravar aquela paisagem de beleza estonteante da fotografia. O destino seria o deserto do Atacama, no norte do Chile.

Neste relato, o casal conta tudo desse roteiro encantador de seis dias. Partiram de Guarulhos (São Paulo), com destino a Santiago, onde dormiram uma noite, para no dia seguinte pegar o voo para a cidade de Calama, que fica a 1.225 km ao norte da capital (duas horas de voo) e é a principal ligação do deserto do Atacama com o resto do país. Dali, um transfer previamente contratado os levou até a pequena San Pedro de Atacama, distante 105 km, num percurso que durou cerca de 1h10, contando com a boa estrada de asfalto que cruza o deserto.

 
Parada para foto na entrada de San Pedro de Atacama

A região de Atacama não é um deserto clássico, como a África, e oferece passeios e atrações bem diversificadas. Pode-se escolher entre trekkings, visitas a vulcões, lagoas e rios congelados, banhos térmicos, observações astronômicas. As opções são muitas e as agências que operam os passeios também. Para otimizarem o roteiro e não se perderem no meio de tantas possibilidades, Clari e Cris pesquisaram no booking.com e escolheram o Hostel Quinta Adela para se hospedarem. Depois disso, solicitaram ao dono do estabelecimento, José Miguel, que enviasse, por e-mail, os passeios disponíveis. Com as informações de José Miguel mais as pesquisas que fizeram em sites e blogs especializados, deu para escolher os passeios que acharam mais interessantes e organizar a ordem deles. As reservas foram feitas em agências locais pelo Hostel, que também se encarregou da contratação do transfer de ida e volta de Calama a San Pedro.

Observação astronômica

O casal aproveitou o primeiro dia para almoçar no restaurante Delicias del  Carmem, onde comeram salmão com pévre, uma espécie de sal apimentado da região. Deram uma voltinha pela Caracoles, a principal rua da cidade, repleta de agências de turismo e inúmeros restaurantes de ambiente charmoso e boa gastronomia.

À noite, foram fazer a observação astronômica, que deve ser marcada com antecedência, diante da grande procura, além de não poder ser realizada em noite de lua cheia, pois há prejuízo da visibilidade. Durante a observação, o guia Rodrigo, que montou um observatório na própria casa, fez uma explanação sobre os astros, enquanto a dupla via pelo telescópio o planeta Saturno, as constelações do escorpião e da libélula, entre outras. O deserto do Atacama é considerado um dos melhores locais no mundo para a observação dos astros.

 

 

Atacama é um dos melhores locais do mundo para observação astronômica

Piedras Rojas, Lagunas e Salar de Atacama

Piedras Rojas foi o passeio escolhido para o segundo dia, por ser indicado para adaptação à altitude. O programa dura o dia inteiro e incluiu também passagens pelas Lagunas Altiplânicas (Miniques e Miscanti) e, por fim, o Salar de Atacama (62 km ao sul de San Pedro). Há ainda uma parada na diminuta vila de Toconoa, local onde os incas faziam pausa quando desciam do Peru por encontrarem ali água em abundância. O roteiro completo vai das 8h30 às  19h30.

Clari e Cris são unânimes em afirmar que Piedras Rojas foi o passeio mais impactante da viagem, contemplando aquelas paisagens deslumbrantes que viram nas fotografias e fizeram com que elegessem o destino para suas férias. Embora os guias indiquem roupa térmica para o passeio, por causa dos ventos fortes, no dia da visita não ventava muito, o que fez a caminhada bem prazerosa naquele cenário onde o azul cristalino da água e do céu forma um belíssimo contraste com os variados tons avermelhados das rochas.

 
Piedras Rojas: os tons coloridos das rochas compõem um cenário fantástico

 
               O casal parece flutuar sobre águas congeladas em Piedras Rojas

Depois de Piedras Rojas, o casal desceu nas lagunas altiplânicas, que têm águas em tom azul escuro e ao fundo os dois vulcões que possuem os mesmos nomes das lagoas: Miniques e Miscanti. No local há muitas vicunhas, animais da mesma família das alpacas.

 
Vicunhas habitam as margens das lagoas altiplânicas

Após uma parada para almoço caseiro, incluída no passeio, partiram para o Salar de Atacama, um grande lago salgado que secou, formando o maior depósito de sal do Chile, com 3.200km2. O Salar é o habitat de muitos flamingos, que ficam principalmente próximos à Laguna Chaxa. O guia explica que a cor dos flamingos provém da ingestão de microorganismos de decomposição das rochas vulcânicas, que contêm dióxido de ferro. As aves se alimentam desse material durante quase oito horas por dia e quanto mais vermelho o flamingo, mais velho ele é.

 
Salar de Atacama é habitat de muitos flamingos

À noite, Clari e Cris optaram por jantar no Adobe, um dos restaurantes mais famosos de Atacama, com uma grande fogueira no meio do salão. Comeram piupiu de frango e de camarão, um tipo de caldo apimentado, servido numa cumbuca de barro, acompanhado de batatas e da carne escolhida. Infelizmente, o atendimento não foi dos melhores, pois a garçonete insistia para que os clientes escolhessem os pratos com pressa, sem se preocupar em ser gentil ou prestar informações sobre o cardápio. Após o jantar, a dupla passeou pela rua Caracoles, cujo comércio funciona até às 22h, onde fizeram umas comprinhas.

Salar de Tara

Para o terceiro dia, o casal escolheu outro passeio longo e distante de San Pedro: o Salar de Tara – a 130 km da cidade. Saíram às 8h e retornaram no final da tarde, passando por vários pontos, como o rio kipiaco e a laguna Diamante, que estava congelada. Para ter acesso ao Salar, é preciso deixar a estrada principal e percorrer o deserto. É necessário guia neste passeio, pois não há marcações na estrada. Antes de chegar ao Salar, fizeram paradas para ver o grupo de rochas conhecido por Monges e para apreciar a pedra chamada “O Guardião”, que lembra o rosto de um índio voltado para o sol.

Rocha “O Guardião”
Cris ensaia um “voo” no caminho para o Salar de Tara

Chegando ao Salar os guias montam uma mesa, com decoração inca, para servir o almoço incluso no passeio, geralmente comida caseira, como frango acompanhado de um bom vinho. No Salar de Tara há visuais muito bonitos, com vulcões, mas são cenários distintos daqueles vistos em Piedras Rojas.

 
Salar de Tara: paisagem formada por deserto e vulcões

Para o jantar, o casal escolheu o restaurante Picada del Indio, que tem excelente custo benefício. O menu do dia, incluindo entrada, prato principal e sobremesa, sai por 4,5 mil pesos chilenos, cerca de 25 reais, enquanto o prato do dia os restaurantes da Rua Caracoles fica entre 7,5 e 11 mil pesos chilenos. Não é a toa que o Picada, cujo salão é pequeno, está sempre lotado e com fila na porta.

San Pedro e Vale de La Luna

Na manhã do quarto dia, Clari e Cris fizeram uma pausa nos passeios para conhecer um pouco mais a pequena San Pedro. Visitaram a igrejinha construída de adobe, inaugurada no século XVII, na Plaza de Armas, e foram às compras no mercado de artesanato, que vende produtos, como artigos indígenas e decorativos, com preços mais em conta que na Rua Caracoles.

Passeio pelo centro de San Pedro: visita à igreja do séc XVII e ao mercado de artesanato

À tarde, o casal voltou a explorar os arredores de San Pedro, visitando o Vale de da Luna, que fica a 16 km, localizado na Cordilheira do Sal. O vale tem formações rochosas curiosas, como as “Três Marias”, que hoje são apenas duas, pois, infelizmente visitantes mal inspecionados derrubaram uma das pedras.

 
As três marias: danificada pela ação humana, exibe hoje apenas “duas Marias”

Este roteiro inclui a subida a uma duna de areia, que exige esforço mediano para quem não tem preparação física. No final do passeio, o grupo segue para a Pedra do Coiote, um excelente mirante para ver o por do sol.

 
O por do sol visto do mirante “O coiote”

À noite, o restaurante italiano La Casone foi o escolhido para o jantar. Pratos de visual elegante e saborosos custam entre 7,5 a 10 mil pesos chilenos.


Vale do Arco-Iris

No quinto dia, o passeio escolhido foi o Vale do Arco-íris, cuja principal atração são os desenhos rupestres feitos por ancestrais incas gravados numa encosta. Detalhe interessante é que na parte exterior da rocha estão os petroglifos, enquanto nas reentrâncias do interior se encontram diversas “covas” que eram cavadas para servir de local para dormida desse povo nômade.

O Vale do Arco Íris é composto de muitas rochas de cores diversas, em virtude da variedade de minérios que as formaram. É o local ideal para um passeio tranquilo.

 
Rochas coloridas compõem o cenário do Vale do Arco-Iris

Em seguida, visita-se o Vale da Tortuga, que tem um rocha em forma de tartaruga. O passeio dura uma manhã. Ao voltar para San Pedro, a dupla almoçou no A Picada, descansou no hotel e no final da tarde foi para o Lola, bar e restaurante, bem badalado, com música e sempre cheio. Ficaram até o jantar provando um cheviche de peixe branco e empanada de carne. Antes de retornar ao Hotel, Clari foi numa das lojas da Rua Caracoles comprar um casaco térmico para o passeio do próximo dia, que prometia ser muito frio!.

Gêiseres del Tatio

 
Gêiseres del Tatio: temperatura negativa e altitude de 4,3 mil m acima do nível do mar

A dupla deixou para o sexto dia o roteiro mais difícil, que é o Gêiseres del Tatio, a 98 km de San Pedro. O local fica situado a 4.300m de altitude e a visita deve começar até as 7h, quando a temperatura pode chegar aos 20ºC negativos antes do sol nascer.

A grande dificuldade do passeio é a alteração brusca de altitude. Em menos de duas horas de estrada, passa-se dos 2,5 mil de San Pedro para os 4.3 mil do El Tatio. A saída do passeio normalmente é marcada entre às 4h30 e 5h30 da manhã, a depender da estação do ano e da hora prevista para o nascer do sol. Os visitantes seguem em jejum para evitar enjoos ou mal estar causados pela rápida mudança de altitude. O casal seguiu num micro ônibus com um grupo de 25 pessoas. Clari se sentiu um pouco mal no começo da subida, que é bem íngreme, mas com respiração abdominal, lenta e pausada, melhorou.  Quando chegaram ao campo geotérmico fazia 18 ºC negativos e era quase impossível tirar as luvas para fotografar com o celular. Cris arriscou, mas seus dedos logo arroxearam e ele atendeu aos pedidos desesperados da esposa para recobrir as mãos.

Com a chegada do sol, a temperatura subiu para 5º C negativos. Com o clima mais ameno, foi serviço o café da manha e o casal pode curtir o lindo efeito luminoso dos raios solares no vapor subindo do solo.

 
O sol e um bom café (acima) aquece a dupla para contemplar a beleza dos Gêiseres

Dois quilômetros abaixo do campo geotérmico fica o magma de um vulcão, por isso no início do dia quando o sol aquece a água que está no lençol subterrâneo, alcançando 80 ºC, que é o ponto de ebulição naquela altitude, começam a brotar diversos jorros no chão, alguns com 20 a 30 metros de altura. Quando essa água entra em contato com a atmosfera congelante, forma uma imagem de uma grande chaminé. A atividade dos gêiseres é intensa entre 7h e 10h da manhã, depois vai diminuindo até cessar.

No local também há piscinas naturais de água quente, onde os visitantes podem tomar banho por cerca de meia hora. Cris se ariscou. Clari ficou de fora para se proteger do frio e fotografar o marido.

A temperatura da água nas piscinas pode variar bastante: no ponto de saída termal fica em torno de 80ºC, mas à medida que se mistura com a água fria, desce para cerca de 30 a 40ºC, melhor lugar para o banho. Mesmo assim correntes de água fervendo de vez em quando surpreendem os banhistas. Mais distante do ponto de saída termal, a água chega a zero grau.

Depois do banho, a saída da água quentinha para uma temperatura de cerca de 5ºC é dura, mas Cris garante que a imersão vale a pena.

Na viagem de volta de El Tatio (são duas horas de ida e duas de volta) dá para contemplar a bela paisagem que não é vista na subida, quando o sol ainda não raiou: cordilheiras, vários vulcões com destaque para o Putana, cujo cume está sempre coberto de neve, rios congelados, cactos com formatos diferentes, tudo encanta os visitantes. Faz-se ainda uma parada no povoado de Machuca, a 4 mil m de altitude. A atração aqui é o espetinho de alpaca, típico da região. Segundo o casal, a carne é firme, mas muito saborosa.

Depois de seis dias de aventura intensa, nossa dupla de colaboradores deixou o deserto, com a sensação de que estiveram em outro planeta.

 
Depois de seis dias de muita aventura, Clari e Cris se despedem do deserto

Incansáveis, partiram para Santiago onde subiram na torre mais alta da América Latina, o Sky Costanera, e ainda arranjaram um tempinho para um pequeno tour gastronômico que incluiu o badalado restaurante “Como Água para Chocolate” e o “Peumayen”, que serve comida ancestral, numa proposta a “la homem da caverna”. Neste último, degustaram um prato de carne de cavalo.

Fim das férias? Não para esses aventureiros, que aproveitaram o período de “descanso” para visitar a família de Clari na Bahia, passando uma semana em Costa de Sauípe. Quando já pensavam em voltar para casa, uma promoção de voos para Bariloche os fez mudar de ideia. E não é que os sortudos conseguiram pegar a maior neve em pleno mês de setembro?!. Mas essa é uma outra história, que fica para ser contada num próximo post.

CUSTO – De acordo com cálculos do casal, a visita de seis dias a Atacama, no mês de agosto de 2016, custou, incluindo passagens aéreas, hospedagem com café da manhã e passeios aproximadamente R$ 3.200,00 por pessoa, excluindo as demais refeições e compras feitas na viagem. Todos os trechos aéreos foram comprados na Latam.

 

DICAS

 
Clari e Cris dão as dicas de sobrevivência no deserto

⇒ O casal indica a contratação dos passeios pelo hotel escolhido, pois além de simplificar o processo, é mais seguro do que optar por agências desconhecidas.

⇒ Suja-se muita roupa no deserto, por isso é bom levar peças escuras. Na mala, devem ir tanto roupas de verão para os passeios em San Pedro e locais próximos, quanto roupas térmicas para as visitas aos gêiseres e aos salares. Debaixo das roupas de inverno é sempre bom colocar uma camiseta, pois a variação de temperatura é constante.  – Não despreze o frio no passeio ao El Tatio, pois você pode congelar com as temperaturas de até 20ºC negativos. Sapatos de trekking ou botas antiderrapantes são recomendáveis. Luvas com “touch” garantem fotos no celular sem o risco de congelar os dedos.

⇒ A viagem pode ser feita com crianças, porém os passeios mais indicados são aqueles em que a temperatura é mais amena e não há grandes diferenças de altitude.

⇒ Se você dispor de apenas três dias, a dupla recomenda os passeios imperdíveis: 1º dia: Vale de La Luna e Coicote, com observação astronômica à noite; 2º dia: Piedras Rojas; 3º dia: Gêiseres del Tatio (das 5h às 12h30) e passeio pela cidade à tarde/noite.

A escolha do hotel

A hospedagem em San Pedro é cara, embora os hotéis e pousadas sejam bem simples, com exceção de três ou quatro resorts mais luxuosos, com preços altíssimos. O casal pesquisou no site booking.com uma opção com boa pontuação entre os grupos de casais e famílias, pois são mais perceptivos. Escolheram o Hostel Quinta Adela, pela localização e também por ter calefação, pois embora o clima em Atacama seja quente durante o ano todo, há uma grande variação térmica, podendo-se passar de 30ºC de dia para 4ºC à noite.

A casa onde funciona o empreendimento tem 12 quartos e pertenceu à avó do proprietário, José Miguel, cuja proposta é passar para os hóspedes a experiência de se sentirem na casa de um amigo.

O hostel é simples, mas preza pela limpeza e organização. No quarto ocupado por Clari e Cris não havia TV nem frigobar. Porém o estabelecimento disponibiliza wi-fi grátis e tem uma área comum com duas lareiras, onde se pode saborear um bom vinho nas noites frias. O café da manhã é básico, composto de queijo, presunto, bolacha de pão quente com ovo, geleia e suco. Esse cardápio era o mesmo servido a José Miguel por sua avó e sua mãe.

Fotos cedidas por Clari e Cris Silva

Esse texto não contém anúncios ou publicidade. A citação de estabelecimentos visa apenas compartilhar com o leitor a opinião pessoal dos colaboradores sobre os serviços experimentados.

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