Rota do Cangaço em Piranhas

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Rota do Cangaço alia navegação no Rio São Francisco e trilha na Caatinga

A história do Cangaço tem forte ligação com a pequena cidade de Piranhas, no alto sertão de Alagoas. Contam que a cidade foi invadida pelo bando de Lampião, o que levou a fuga dos moradores. O único que ficou, Chiquinho Rodrigues, conseguiu espantar a quadrilha e recebeu condecoração do Exército por sua coragem. Também foi de Piranhas que partiu o pelotão de policiais que exterminou Lampião, Maria Bonita e boa parte do bando, na Grota de Angicos, local que hoje pertence ao município de Poço Redondo (Sergipe). Os corpos dos cangaceiros foram abandonados no lugar, porém suas cabeças foram decapitadas e expostas na cidade. A Rota do Cangaço em Piranhas é o passeio oferecido por agências de turismo que leva até a Grota de Angicos, local onde os soldados mataram Lampião.

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Cangaço Eco Parque foi o local de parada do nosso passeio

Apesar de se basear num evento fatídico, a Rota do Cangaço é um passeio leve e instrutivo, que alia a navegação pelo Rio São Francisco com a história do Cangaço. A trilha a pé até a Grota de Angicos é opcional. Quem preferir apenas aproveitar a bela paisagem do Velho Chico, pode ficar nos restaurantes de apoio que têm diversas atividades de lazer. Quem optar por seguir a trilha, vai ter a oportunidade de conhecer a face mais árida e seca da Caatinga e saber um pouco sobre a vida dos cangaceiros que viveram e morreram naquele lugar.


 

Saiba mais

Além da Rota do Cangaço, nos três dias em que ficamos em Piranhas, Alagoas, fizemos os seguintes passeios:

Cânion do Xingó

Tour na Hidrelétrica do Xingó

–  Sítios arqueológicos na Fazenda Mundo Novo

–  Centro Histórico e mirantes de Piranhas

Em Piranhas, ficamos no Pedra do Sino Hotel e contamos neste post como foi nossa experiência de hospedagem.


Como é a rota do Cangaço em Piranhas

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O passeio é feito em grandes embarcações, chamadas catamarãs

Os passeios para a Rota do Cangaço saem a partir de 9h do atracadouro de Piranhas, que fica no leito natural do rio São Francisco. A depender do dia e da empresa, os catamarãs podem parar no restaurante Angicos (mais rústico) ou no Cangaço Eco Parque (com melhor estrutura de lazer). De ambos, partem as trilhas que levam até a Grota de Angicos. O passeio completo dura entre 4 e 5 horas e custa R$60,00 por pessoa (mais R$2,00 de taxa de turismo).

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Vista do Restaurante Angicos, outro ponto de parada dos passeios

Nós fizemos o passeio com a empresa MFTur. Como era um dia de semana, o catamarã que nos conduziu tinha poucos passageiros. A navegação de cerca de uma hora até o restaurante Cangaço Eco Parque foi muito agradável. O vento constante no trajeto diminui o calor típico do sertão e pudemos seguir, admirando as belas vistas do rio cercado por montanhas.

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Passeio proporciona belas vistas do leto natural do Rio São Francisco

A estrutura do barco é muito boa, com bar onde são servidos bebidas e petiscos, sanitários e uma área aberta com rede, onde as águas do rio penetram e funcionam como piscina de hidromassagem! Testamos a força das águas do velho Chico e adoramos a massagem natural. Só é permitido 2 passageiros por vez na “piscina”! Vale a pena experimentar.

Hidromassagem no catamarã e vista do povoado de Entremontes à beira do rio

Trilha até a grota de Angicos

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Funcionários com trajes típicos do cangaço recepcionam no Eco Parque

Atracamos no Cangaço Eco Parque, onde fomos recepcionados por funcionários com trajes que lembram o dos cangaceiros. A trilha até a Grota de Angicos é opcional. A caminhada dura cerca de 1h30 a 1h50 num trajeto de 3,2 km (ida e volta). Quem não quiser fazer, pode permanecer no restaurante, aproveitando a área de lazer, que conta com parede para escalada, toboágua, standup, parque infantil, gazebos, redários e a prainha do rio.

Para fazer a trilha guiada, paga-se R$ 10,00. Nós seguimos com um grupo de cerca de 15 pessoas para a trilha que fica em meio à caatinga. No caminho há sinalizações com os nomes das várias especiais vegetais que formam esse bioma, exclusivo do Brasil. Nem toda plantinha com espinhos se chama cactos, como eu imaginava, há uma enorme variação, que pode ser vista com suas respectivas identificações no caminho para Angicos.

História na Rota do Cangaço em Piranhas

Trilha tem dificuldade moderada e o calor é muito forte

Nosso grupo saiu por volta do meio dia e o sol estava escaldante. A trilha é de nível moderado, mas o calor torna o trajeto muito cansativo. Eu, que sou sedentária e já passei dos 40 anos, parei diversas vezes para beber água e tomar ar. Meu marido, minha filha e o restante do grupo conseguiram fazer o caminho sem dificuldades. No trajeto, a guia faz algumas paradas para explicar a geografia da região, mostrar onde os cangaceiros pegavam água e por onde os ajudantes levavam os mantimentos de Piranhas até o esconderijo do bando.  A nossa guia, Anne Fontes, foi muito atenciosa e sempre esperava por todos, sendo que eu era a mais lenta do grupo.

Chegada na Grota

Na grota, há cruzes e placas com os nomes dos cangaceiros e do soldado morto

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Guia explica como ocorreu a emboscada que exterminou Lampião

Quando, finalmente chegamos na Grota, a guia fez uma breve exposição sobre o cangaço e contou como se deu a emboscada da Polícia que conseguiu matar, em 28 de julho de 1938, Lampião, sua mulher Maria Bonita e mais 9  cangaceiros. Lampião foi um dos primeiros a ser morto, o que fez com que parte do bando fugisse. Apenas um soldado, Adrião Pedro de Souza, morreu no confronto.

Na grota há cruzes e placas sobre as pedras indicando as pessoas que foram mortas no local. Não há nada de surpreendente ou macabro na trilha ou na grota. A caminhada vale a pena por seu significado histórico, além do conhecimento – na pele – da aspereza e secura do sertão.

 

Relax na Rota do Cangaço em Piranhas

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Depois da trilha, é hora de admirar o belo visual do rio São Francisco

 

Quando voltamos ao Eco Parque, almoçamos moqueca de camarão e peixe grelhado (fizemos o pedido antes de partirmos para a trilha). A comida tem qualidade e é saborosa. O preço da refeição com bebidas para três pessoas foi  R$ 214,00, a mesma média que pagamos no passeio ao Cânion do Xingó.

Depois do cansaço da trilha, aproveitamos a infra do Eco Parque para relaxar. Tomamos banho nas águas mornas da prainha, curtindo o belo visual do Rio São Francisco. Depois fomos descansar nas redes, observando os macaquinhos que brincavam entre as mangueiras que fazem a sombra do redário.

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Banho na prainha para descontrair após longa caminhada

Enfim, após ver o lado duro da caatinga, é bom saber que o Velho Chico está bem ali do lado, cortando o sem-árido brasileiro, como o “Nilo” nacional!

 

Vale a pena fazer a trilha de Angicos?

SIM

se você curte trilhas, se tem interesse por história e geografia, se tem preparo físico e não se importa em caminhar sob o sol do sertão!

NÃO

se você não gosta de caminhar ou não tem preparo físico, se não tem interesse pela história do cangaço ou não gosta de ver locais onde pessoas morreram.


 

ANOTE

– No Cangaço Eco Parque há armários, onde você pode deixar seus pertences, quando for para a trilha (R$ 5,00, a locação de um armário).

– Leve no mínimo 2 garrafinhas de água de 500 ml cada, por pessoa

– Passe protetor solar

– Utilize roupas leves e confortáveis e sapatos apropriados para caminhadas, (tênis ou papete de trilha), use óculos, chapéu ou boné para se proteger do sol.

 


INFORMAÇÃO

Rota do Cangaço

MFtur

Reservas pelo celular/whasapp (79) 99972-1320

Site oficial : www.passeiosmftur


 

 

A figura controversa de Lampião

Fotos de Benjamin Abrahão Botto reproduzidas dos sites Virtualbooks (Maria Bonita) e Olimpíada de História (Lampião).

Virgulino Ferreira da Silva nasceu no município de Serra Talhada, em Pernambuco, em 4 de junho de 1898 . Entrou para o cangaço, aos 19 anos, juntamente com seus irmãos, para vingar o pai, morto por um tenente numa briga por terras. Ganhou o apelido de Lampião pela habilidade em manejar um rifle com tanta velocidade, que seus disparos iluminavam a noite do sertão, como um “lampeão”. Seus irmãos morreram cedo e não chegaram a ver Virgulino ganhar fama e se tornar o líder do bando e o cangaceiro mais temido do Brasil.

No contexto histórico brasileiro, o fenômeno do cangaço é visto como banditismo de sertanejos que assaltavam fazendas, matavam e espalhavam o terror, estuprando mulheres, castrando e marcando a ferro inimigos. Mas há muitas informações desencontradas sobre esse capítulo da história do Brasil. Existem teses que indicam que os próprios coronéis, donos de fazendas, permitiam que os cangaceiros agissem em territórios de inimigos políticos ou em briga por terras. Outras acreditam que o cangaço, apesar dos meios brutais, era uma espécie de reação de sertanejos miseráveis contra a exploração dos coronéis.  Registros mostram que tanto os cangaceiros quanto a polícia que andava em seu encalço agiam de forma extremamente violenta.

A construção do mito

Fotos e pedra com o nome dos onze cangaceiros mortos em Angicos

A figura de Lampião ajuda a tornar ainda mais controvertida a história do Cangaço. Virgulino introduziu mulheres no bando, ao conhecer Maria Déia, no ano de 1931, em Paulo Afonso, na Bahia. Déia abandonou o marido e se juntou ao cangaceiro, tornando-se Maria Bonita, apelido que foi dado pelo companheiro. O casal teve uma filha, Expedita, que foi criada por amigos, pois Lampião não permitia a presença de crianças no bando. Dizia que choro de menino chamava a atenção da polícia.

Lampião e os cangaceiros se autoproclamavam religiosos, eram devotos de Padre Cícero, carregavam imagens e medalhas de santos e rezavam sempre, especialmente antes de saírem para agir, pois acreditavam que a reza “fechava o corpo” para ataques externos.

O chefe do Cangaço chegou a visitar Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, para pedir proteção, quando ouviu do religioso o pedido para que abandonasse o cangaço.

Outro fato curioso foi o pedido do Governo para que Lampião lutasse contra a Coluna Prestes, que se aproximava do nordeste. Contam que o bando havia atacado alguns membros da Coluna, equivocadamente, pensando tratar-se de volantes, policiais que corriam o sertão para enfrentar os cangaceiros. Ao ser convocado para debelar a Coluna, Lampião teria se negado, afirmando que o Tenente Luís Carlos Prestes não era homem par ser assassinado, mas, sim, para se bater continência.

Bandido ou herói?

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História do Cangaço é destaque no Museu do Sertão, Piranhas

 

Nos embates no cangaço, Lampião perdeu um olho e, ao morrer, aos 40 anos, tinha o corpo debilitado pelas lutas e pela vida dura no sertão. Durante seus mais de 20 anos no cangaço, sua morte foi anunciada diversas vezes, por isso a polícia fez questão de expor as cabeças degoladas de Lampião e de seus companheiros, em Piranhas, que fica próxima à Grota de Angicos e em tudo quanto é cidade do interior do Nordeste.

Depois desse desfile macabro, os crânios dos cangaceiros foram enviados ao Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador, para serem estudados. Só foram enterrados, nos anos 60, depois de muita insistência das respectivas famílias.

A inexistência de fontes seguras sobre Lampião e o cangaço dão espaço às mais variadas teses e ajudam a manter o mito, que já foi retratado em filmes, livros, novelas, músicas, peças de teatro e na literatura de cordel. Bandido ou herói? A resposta sobre quem foi Lampião estará sempre a depender do ponto de vista de quem conta a história.

 


Fonte: Além da história contada pela guia na Rota do Cangaço, as informações sobre Lampião e o cangaço, acima relatadas foram pesquisadas nos seguintes sites suapesquisa e 360 meridianos.

 


Os dados deste post se referem ao período de nossa viagem em dezembro de 2018. Confira preços, horários e condições dos serviços na data de sua viagem nos sites e telefones indicados.

2 comentários em “Rota do Cangaço em Piranhas

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  1. Que legal, Gabriel! Fico feliz do post ter te inspirado a conhecer mais sobre esse capítulo da nossa história! Se puder, faça a Rota do Cangaço, em Piranhas! Obrigada pela visita. Um abraço.

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